Verifique abaixo o e-mail de suporte da área desejada e entre em contato:
Portal Educacional: suporteti@est.edu.br
Webmail: informatica@est.edu.br
Catálogo da Biblioteca: biblioteca@est.edu.br
Ambiente Virtual: ead@est.edu.br
Diretor Geral da Faculdade Latino-Americana de Teologia Integral, Ariovaldo está ministrando disciplina no curso de especialização em Missão Urbana da Faculdades EST.
Nesta entrevista, o líder evangélico situa o desafio da missão urbana no conjunto das questões religiosas contemporâneas. Comenta sobre a emergência das denominadas “igrejas midiáticas” e sua inserção no cenário político nacional, definindo a religiosidade brasileira como a religiosidade do poder.
1. A crescente convergência entre elementos de ordem religiosa e midiática e a conformação das assim denominadas “igrejas eletrônicas” têm afetado a imagem dos evangélicos no Brasil?
Ariovaldo: Sem dúvida. O conceito geral que se tem hoje de evangélico é intuído a partir do que se vê na mídia. Por mais falso que ele seja, esse é o conceito vigente. O Brasil é, por excelência, um país de imagens. O brasileiro acredita que tudo aquilo que é reproduzido na televisão é verdade. Vale lembrar que a força da mídia está diretamente relacionada ao fato de que o Brasil ainda é um país que sofre com altos índices de analfabetismo funcional. Portanto, o privilégio da comunicação não está vinculado ao texto, mas sim à imagem.
2. Os veículos de comunicação massiva devem ser utilizados para fins evangelizadores?
Ariovaldo: Difícil de dizer. Sabemos, contudo, que se você quiser conversar com o brasileiro terá, obrigatoriamente, que apelar para o uso de imagens e para os contornos que somente a mídia oferece. A viabilização da mídia para fins evangelizadores precisa ser planejada com profunda consciência sobre as potencialidades do meio utilizado, o que não ocorre no nosso país. Seguindo o raciocínio do sociólogo canadense Marshall McLuhan, poderíamos dizer que o meio é a mensagem e que, portanto, existe uma limitação prévia no uso de qualquer veículo midiático. Nesse sentido, há também uma adequação necessária para você não perder o seu objetivo.
Dizer que não se pode fazer uso da mídia para fins evangelizadores é negar ao pregador, e à própria igreja, o uso de uma ferramenta fundamental para aqueles que querem se comunicar com os brasileiros. Agora, se for para utilizarmos a mídia da maneira como está sendo utilizada na atualidade, então melhor não usar.
3. Qual é a importância da missão diante do cenário de violência que aflige as grandes metrópoles brasileiras?
Ariovaldo: Hoje, mais do que nunca, a igreja precisa assumir a vocação de pacificadora e de construir movimentos para a disseminação da cultura de paz. As igrejas estão desafiadas a ensinar que as pessoas só conseguem conviver em harmonia compreendendo o significado do perdão. O perdão é essencial para a convivência e a busca pelo direito é essencial para a garantia da dignidade humana. Cabe à igreja atuar como um agente na exigibilidade do direito. O direito humano está sendo sonegado no Brasil. No nosso país, as pessoas não têm acesso à moradia, educação, saúde, transporte público e, nesse contexto, a igreja precisa agir como agência de conscientização do direito. A única maneira de enfrentar a sanha neoliberal que tomou conta do mundo capitalista após a queda do Muro de Berlin é a noção do cidadão enquanto sujeito de direito. Essa noção está presente no conteúdo da nossa fé, porque a nossa fé chama os seres humanos a recuperar a sua humanidade.
4. Quase 70% dos evangélicos brasileiros estão vinculados a igrejas pentecostais ou neopentecostais. Por que razões as igrejas históricas não conseguem manter o ritmo de crescimento verificado entre os segmentos não-tradicionais?
Ariovaldo: Os segmentos não-tradicionais perceberam qual é o princípio da religiosidade brasileira, enquanto as igrejas históricas não perceberam. A religiosidade brasileira é a religiosidade do poder. A religiosidade popular católico-romana ensina a negociar com os santos. As religiões de matriz africana ensinam a negociar com as entidades. As religiões animistas dos povos indígenas ensinam a negociar com as entidades da floresta. Nosso povo aprendeu uma religiosidade focada no poder e na negociação.
O que os pentecostais conseguiram foi convencer a base da pirâmide de que quem tem poder é Jesus. Então, se o fiel está procurando obter poder ele precisa encontrar Jesus, porque é Jesus que detém todo o poder. Os neopentecostais, por sua vez, acrescentaram à fala dos pentecostais que o poder que emana de Jesus é adquirido através de um processo de negociação. Assim sendo, o fiel é chamado a investir na igreja através da doação de ofertas.
5. Igrejas neopentecostais, a exemplo da Universal do Reino de Deus, estão intervindo de forma incisiva no cenário político nacional. É possível conciliar religião e política?
Ariovaldo: A postura adotada pela Igreja Universal e muitas outras não indica uma conciliação entre religião e política, mas sim a conversão da religião instrumentalizada naquilo que há de pior na política.
Não há dúvidas de que há uma convergência entre religião e política na medida em que a fé gera os homens e as mulheres que irão administrar o bem público em favor de todos. Todos nós somos políticos e cidadãos que moramos na pólis e, por isso, somos também todos responsáveis pela administração e melhoria de nossas cidades.
Nesse contexto, onde fé e política se encontram? A fé só se encontra na política com “P” maiúsculo, que é a política que forma o cidadão para a consciência dos seus direitos e deveres como membro de uma comunidade. O papel da igreja deveria ser o de formar cidadãos, formar pessoas que compreendam o significado de administrar a coisa pública para o bem comum. O que estamos assistindo a partir da experiência de algumas igrejas, entre elas a IURD, não é o diálogo entre religião e política, mas sim a submissão da religião ao que há de pior na política. Na verdade, poderíamos falar de um aparelhamento e de uma instrumentalização da religião, num cenário em que o povo é tratado como vassalo, o voto é o voto de cabresto e os líderes são cooptados por toda sorte de movimento de corrupção e de licitude. Isso não é relação entre religião e político. Isso é a negação do papel da religião na história. Nós precisamos ir por outro caminho.
6. O senhor é coordenador de um importante movimento em defesa dos direitos humanos e do combate à violência em São Paulo. Qual é, especificamente, o trabalho desenvolvido pelo São Paulo Pela Paz?
Ariovaldo: O movimento São Paulo Pela Paz está vinculado a um movimento maior chamado Nossa São Paulo. O objetivo específico do São Paulo Pela Paz é a disseminação da cultura de paz, principalmente a partir das populações empobrecidas. Quase todo o trabalho de disseminação de cultura de paz acaba desenvolvendo uma retórica na qual os pobres são culpabilizados. Parece que os pobres são as pessoas que geram a violência. Na contramão deste raciocínio, nós estamos trabalhando com a premissa de que é a partir dos pobres que se constrói a paz. Não existe ninguém que esteja buscando mais a paz e a reconciliação do que os pobres. O nosso papel é justamente estar ao lado dos pobres na luta contra o abuso, sempre objetivando a construção de uma cultura de paz que tem como premissa básica o respeito aos direitos fundamentais das populações marginalizadas, a busca pela inclusão e o monitoramento de políticas públicas.
A cultura de paz não poderá ser construída através da ingerência de uma elite predatória tentando dizer aos pobres que eles precisam ser melhores. Nossa proposta é, ao contrário disso, dizer à elite que eles precisam se arrepender.
Entre as nossas iniciativas está a construção de um bosque dos Direitos Humanos, localizado no Parque Anhanguera. Este parque tem 15 estações e, em cada uma delas, existe uma placa frente e verso na qual está escrito um dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A proposta é levar os alunos e alunas de escolas para momentos lúdicos no bosque, onde possam aprender quais são seus direitos e deveres. Com isso, estamos criando uma nova geração que não tem vergonha de ser gente.
Através de parceria com o Conselho Municipal de Direitos Humanos nós estamos tendo a oportunidade de visitar as escolas públicas do município de São Paulo. A proposta é capacitar professores/as para que possam reconhecer sinais de abuso contra as crianças, ajudando esses menores a escapar deste estado de violência. Entendemos que esse trabalho representa uma dimensão da pregação do Evangelho.
7. Como foi a experiência de ministrar disciplina na Faculdades EST?
Ariovaldo: Sinto profunda honra em ministrar aula aqui na Faculdades EST. Nem acreditei quando fui convidado e fiquei até mesmo questionando o que a Faculdades EST poderia querer de um simples batista inserido na loucura de São Paulo. É um privilégio e está sendo uma ótima experiência.
8. Como a marca EST é vista na capital paulistana?
Ariovaldo: A Faculdades EST é respeitada como o que há de melhor em educação teológica no país. É claro que existem controvérsias do ponto de vista das abordagens exegéticas, o que é comum entre teólogos, mas não conheço ninguém em São Paulo que não tenha profundo respeito pela qualidade de ensino desta instituição.