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Prof. Dr. Roberto Zwetsch

21/05/2015 - Entrevista divulgada no IHU Online, do Instituto Humanitas Unisinos, no dia 21/05/2015, sobre a Igreja e o processo de abertura que nunca acaba.

“Francisco defendeu que a igreja dos pobres é mais que uma categoria sociológica, filosófica ou política. Ela tem um significado teológico, pois ‘Deus manifesta sua misericórdia a eles’”, afirma o teólogo.

 

“Com o Papa Francisco parece que estamos adentrando um novo tempo da vivência ecumênica, que tem como marcos aConferência de Missão e Evangelização de Edimburgo em 1910, o surgimento do Conselho Mundial de Igrejas em 1948e, evidentemente, o Concílio Ecumênico Vaticano II (1963-1965), cujo cinquentenário estamos comemorando num novo momento histórico”, pontua Roberto Zwetsch em entrevista àIHU On-Line, concedida por e-mail, por ocasião de sua participação no II Colóquio Internacional IHU – O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade.

Pastor e professor de Teologia Prática da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo – ESTZwetsch comenta que as declarações de Francisco e o “sentido que ele deu ao seu pontificado”, afirmando que é o bispo de Roma antes de ser papa, “já conquistou muita aceitação no mundo luterano”. Na avaliação dele, com os discursos de críticas à globalizaçãoFrancisco está, “corajosamente, proclamando que a justiça dos pobres deve estar em primeiro lugar, e não as premissas economicistas que têm levado tantas sociedades ao caos das guerras e da injustiça”. É por isso, explica, que “sintomaticamente, a palavra que ele escolheu para definir esta atitude é misericórdia, a igreja de Jesus precisa ser igreja da misericórdia”. Os gestos do pontífice, frisa, também devem ser compreendidos como uma “clara afirmação ecumênica, como ter recebido, recentemente, no Vaticano a bispa luterana de Upsala para um encontro fraterno e de reflexão, já demonstram que estamos diante de uma nova postura em relação à compreensão dos desafios da missão cristã no mundo atual”.

Roberto Zwetsch é mestre e doutor em Teologia e professor de Teologia Prática e Missiologia das Faculdades EST, professor do Programa de Pós-Graduação e do Programa de Formação do Conselho de Missão entre Indígenas daIECLB. Participa do Conselho Permanente do Fórum Mundial de Teologia e Libertação representando a Comunidade de Educação Teológica Ecumênica Latino-Americana e Caribenha – Cetela e Faculdades EST. Possui muitos artigos publicados em revistas especializadas. Entre suas obras, destacamos Missão como com-paixão. Por uma teologia da missão em perspectiva latino-americana (São Leopoldo: Sinodal; Quito: CLAI, 2008).

 

Confira a entrevista realizada pela repórter Patrícia Fachin.

IHU On-Line - O título da sua tese de doutorado traz a ideia de “Missão como com-paixão”. Recorrentemente, o Papa Francisco retoma o conceito de “misericórdia” em seus discursos. Como o senhor entende a missão enquanto compaixão? Como analisa essa abordagem nos discursos do Papa?

Roberto E. Zwetsch – Há muitos desafios hoje para definir oconceito de missão na América Latina. Um primeiro diz respeito ao próprio conceito de missão. É preciso assumir e tirar as devidas consequências de que a missão é obra de Deus, é missio Dei, e que todos os esforços humanos na missão cristã estão em função daquela ação divina, estão a serviço da missio Dei. Se Jesus disse ser caminho, o caminho é seguir os passos de Jesus hoje, ter o discernimento de que este caminho passa pelo serviço ao outro, por carregar a própria cruz e, eventualmente, “dar a vida” pelas pessoas que amamos ou queremos servir. Esta compreensão de missão questiona muitos de nossos programas, planos, estratégias missionárias.

Um segundo desafio é abrir-se ao outro, às pessoas que estão conosco na caminhada e àquelas mais distantes, tanto dos nossos pensamentos e cultura, quanto geograficamente. Este processo de abertura — que nunca acaba — implica aceitar o outro povo, a outra cultura como digna de ser apreciada, conhecida, valorizada como uma forma humana de viver e construir relações. Tal abertura implica ainda uma relação de respeito e de solidariedade com pessoas de outra fé religiosa. Acredito que só o respeito ainda seja pouco nessa abertura para andar com as pessoas a segunda milha, como propôs Jesus no evangelho (Mateus 5.41). Por isto acrescentei a palavra solidariedade como atualização da compaixão. Não só porque isto é uma obrigação dos tempos pós-modernos ou porque seja politicamente correto. O evangelho nos ensina a sermos verdadeiros, autênticos, sem fingimento, humildes sem ser ingênuos, sempre dispostos a servir, a anunciar o amor de Deus e a lutar pela justiça e a paz.

Por isto a caminhada do evangelho é difícil e exigente. Aí podemos compreender melhor o que seja com-paixão. Será que estamos dispostos a tanto hoje em dia? O contexto atual de tensões e concorrência religiosa, num mercado da fé que, em muitos sentidos, avilta a caminhada do evangelho segundo o testemunho bíblico, não me parece facilitar as opções que nos cabem tomar. Mas ainda assim, o pluralismo em que vivemos atualmente tem um aspecto positivo, pois nos ensina a questionar qualquer atitude messiânica de nossa parte. Só há um que é o messias, mestre e pastor entre nós. Quando a dúvida e a incerteza nos assaltam, é hora de nos voltarmos uma e outra vez para Jesus de Nazaré, crucificado e ressurreto. Ele e seu ministério de serviço, cura, amor, perdão e graça nos libertam para uma missão comprometida com a verdade libertadora, que se concretiza em justiça e a paz, em novas relações entre as pessoas e os povos. Este evangelho desafia pessoas e igrejas, todas as nossas instituições. Até mesmo os governos, os estados, o sistema mundial de dominação. Não é por acaso que o Jesus em quem cremos e a quem testemunhamos foi condenado tanto pelo sistema político quanto pela autoridade religiosa.

Ele se tornou um incômodo naquela sociedade. Hoje não poderia ser diferente. E se a fé cristã não incomoda, não abre espaço para a profecia, ela facilmente poderá ser cooptada pelo sistema atual. Penso que esta tentação também está na ordem do dia de nossas igrejas e do debate teológico. Este quem sabe é um dos distintivos do atual PapaFrancisco. Ele também compreende que o evangelho não se reduz à tolerância. O evangelho requer justiça, paz e misericórdia. Por isto colocar-se a serviço dos pobres, das pessoas mais vulneráveis, é mais do que opção. Tal serviço e engajamento é o próprio conteúdo do Evangelho da misericórdia, como ele escreveu.

 

IHU On-Line - Como o senhor interpreta os discursos do Papa Francisco, nos quais ele faz críticas à globalização e menciona as implicações sociais e econômicas geradas por ela, como a pobreza, por exemplo? Qual é o significado e o impacto desse tipo de crítica sendo feita por um líder religioso?

Roberto E. Zwetsch –Francisco, corajosamente, está proclamando que a justiça dos pobres deve estar em primeiro lugar e não as premissas economicistas que têm levado tantas sociedades ao caos das guerras e da injustiça. Seus gestos ousados nessa linha o colocam, seguidamente, em colisão com outros interesses internacionais. Um exemplo dessa atitude pastoral e profética é sua defesa dos imigrantes, especialmente do norte da África. Sintomaticamente, a palavra que ele escolheu para definir esta atitude é misericórdia, a igreja de Jesus precisa ser igreja da misericórdia. Em seu livro com este título, Francisco defendeu que a igreja dos pobres é mais que uma categoria sociológica, filosófica ou política. Ela tem um significado teológico, pois “Deus manifesta sua misericórdia a eles”. Deus se fez pobre por nós e esta dimensão central da encarnação de Deus em Jesus não é algo opcional para nós cristãos, faz parte do centro de nossa fé. Além desse aspecto, Francisco também disse algo importante: os pobres têm muito a nos ensinar. Porque em suas dores conhecem o Cristo sofredor, o Cristo da cruz. Por isto, conclui que precisamos nos deixar evangelizar por eles.

No seu sofrimento e solidários com estas pessoas e povos, nos achegaremos mais perto do Cristo que proclamamos e que nos chama para a vivência do amor que transcende culturas, classes e ideologias. Escutar estas pessoas, compreendê-las assumindo suas lutas e clamores nos ajuda a compreender melhor a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar por meio delas. Estas palavras e as atitudes que o Papa tem tomado na cena internacional me parece que estão colocando em tela de juízo a própria compreensão do que seja o exercício da autoridade no mundo, aqui, a sua particular compreensão pastoral da autoridade da igreja. Tal postura vem chocando tanto o mundo político quanto os meios eclesiásticos, principalmente aqueles setores que se mostram cada vez mais insensíveis ao sofrimento humano e até da própria criação em nome da governabilidade do sistema mundial.

 

IHU On-Line - A garantia aos direitos humanos é outro ponto abordado por Francisco, especialmente em seus discursos sobre a situação dos imigrantes. Qual a importância de esse tema ser colocado em pauta por um líder religioso?

Roberto E. Zwetsch – Em parte já respondi a partir do que disse acima. Talvez pudesse acrescentar que a defesa dos imigrantes em vários lugares do mundo atual, do seu direito à vida, à alimentação, ao trabalho e a uma moradia segura se choca com políticas de contenção, de reforço das fronteiras, de disputas políticas que têm por fundamento interesses econômicos por recursos naturais vistos apenas como condição de exercício do poder, desconsiderando outras consequências danosas como as deportações em massa de populações indefesas, ou a destruição do meio ambiente. Francisco igualmente vem defendendo o direito das crianças e das mulheres, mesmo no interior de uma igreja que secularmente marginalizou o ministério feminino. Estas causas ainda darão muito trabalho ao Papa, mas me parecem promissoras.

 

IHU On-Line - Como o ecumenismo tem sido abordado no pontificado de Francisco? Que perspectivas vislumbra nesse sentido?

Roberto E. Zwetsch – Eu não tenho acompanhado todos os discursos do Papa sobre este tópico, mas seus gestos de clara afirmação ecumênica, como ter recebido, recentemente, no Vaticano a bispa luterana de Upsala para um encontro fraterno e de reflexão, já demonstram que estamos diante de uma nova postura em relação à compreensão dos desafios da missão cristã no mundo atual. As disputas religiosas e os distintos exclusivismos confessionais só contribuem para aumentar o que no passado se definiu como “escândalo da divisão”. Não se trata de imaginar uma futura e harmoniosa “superigreja”. Isto seria uma ilusão. O que está colocado como desafio é quais as chances de darmos ao mundo um “testemunho evangélico” que convença o mundo da justeza da fé e da vivência autêntica do amor proclamado pelo Cristo. Nisto podemos e devemos nos unir pelo bem do mundo e pela verdade da fé que nos constrange a todos.

 

IHU On-Line - Qual tem sido a contribuição dos demais líderes de igrejas cristãs para fortalecer o ecumenismo?

Roberto E. Zwetsch – Não sei dizer assim de pronto. Há lideranças cristãs que verdadeiramente vêm se empenhando por uma abertura ecumênica no sentido da oração de Jesus que encontramos no evangelho de João, cap. 17. Mas muitas outras não compreendem assim seu ministério e se aferram a verdades dogmáticas, como se viu também, e infelizmente, em algumas declarações infelizes dos papas anteriores, Bento XVI e João Paulo II. Com o Papa Francisco parece que estamos adentrando um novo tempo da vivência ecumênica, que tem como marcos a Conferência de Missão e Evangelização de Edimburgo em 1910, o surgimento do Conselho Mundial de Igrejas em 1948 e, evidentemente, o Concílio Ecumênico Vaticano II (1963-1965), cujo cinquentenário estamos comemorando num novo momento histórico. Em todos estes eventos, tratou-se de redefinir o que as igrejas entendem por missão e quais os desafios que a missão cristã deve assumir num mundo dividido por guerras e conflitos que sacrificam milhões de pessoas. Quando se coloca o desafio por paz e justiça como atualização da proclamação evangélica, penso que estamos mais próximos do que Cristo espera de nós, como pessoas de fé e como igrejas que se proclamam suas seguidoras.

 

IHU On-Line - Recentemente, o Papa recebeu um grupo de cem pastores evangélicos pentecostais provenientes de diversas partes do mundo. Como avalia o encontro e interpreta esse tipo de encontro promovido por Francisco?

Roberto E. Zwetsch – Sem dúvida, este é mais um passo no sentido daquela presença que procurei expressar acima. Esta abertura para o mundo pentecostal revela uma nova postura da Igreja Católica e tem uma dimensão de futuro muito importante, pois este é o setor das igrejas cristãs que mais cresce na atualidade em todo o mundo, tanto quanto, se eu pudesse comparar, o islamismo. Mas justamente por causa deste crescimento vertiginoso e sem limites muito claros, o movimento passa a apresentar as fissuras próprias da perda dos carismas e a tendência à rotinização das formas, como alertou Max Weber em seus estudos da religião.

No Brasil, estamos assistindo a um fenômeno ainda menor, mas com grande potencial. Tenho visto um número crescente de leigos e pastores pentecostais vindo estudar em nossas Faculdades de Teologia protestante (metodistas, presbiterianas, luteranas, batistas) com o intuito de buscar formação teológica adequada e sem se negar ao exercício crítico que lhes é proposto. Há uma nova geração de teólogos e teólogas pentecostais em formação, cuja presença no futuro dessas igrejas certamente as ajudará no sentido de uma visão nova, quiçá mais ecumênica e aberta às demais igrejas. Se eu pudesse arriscar, diria que o futuro da teologia na América Latina, mesmo no sentido proposto pela Teologia da Libertação, está nessa aliança responsável com os setores mais abertos das igrejas pentecostais.

 

IHU On-Line - Francisco tem sido caracterizado como um papa aberto ao diálogo com as demais religiões. Como essas ações do Papa repercutem no diálogo inter-religioso? Como ele tem sido visto pelos demais líderes religiosos?

Roberto E. Zwetsch – Como não acompanho de perto todos estes movimentos do atual Papa, não gostaria de responder sem base na realidade. Apenas, poderia reforçar o que dizia acima, que estas atitudes de fraternidade, de abertura para outros líderes religiosos, a atitude de estender a mão da amizade em reconhecimento do outro, por si só demonstram uma humildade que raramente tivemos ocasião de conhecer nos últimos tempos, tanto em lideranças políticas como religiosas. Parece-me um passo importante em direção a uma realidade de autêntica convivência baseada na reciprocidade, na partilha de dons e serviços, que ajuda a desanuviar um mundo carregado de nuvens obscuras.

 

IHU On-Line - Que linhas gerais do Concílio Vaticano II reaparecem no pontificado de Francisco?

Roberto E. Zwetsch – Segundo alguns dos seus intérpretes na teologia católica, o Papa Francisco vem resgatando a compreensão da autoridade do Papa como Pastor antes que a de um monarca autocrático da igreja. Sua ênfase numa igreja dos pobres trouxe de volta ao centro dos debates a atualidade da teologia da libertação, embora num novo contexto marcado pela globalização de um sistema único, global, mas que justamente por isto desfigura a plural diversidade das sociedades e a necessidade de respostas diferenciadas para os problemas atuais. Também me parece que Francisco recoloca o desafio da hermenêutica bíblica, que na América Latina ganhou grande expressão com a leitura popular da Bíblia, que ele conhece muito bem. E por último, quem sabe ele esteja propondo uma nova concepção do que venha a ser igreja de Jesus Cristo, para além do que os dogmas afirmaram ao longo dos tempos. Se conseguir conduzir a sua igreja neste rumo, certamente terá feito uma grande obra a ser reconhecida pelos tempos que virão e pela nova geração que nos seguirá, reforçando o testemunho cristão num mundo cada vez mais plural e controverso.

 

IHU On-Line - Qual tem sido a repercussão do pontificado de Francisco entre os luteranos?

Roberto E. Zwetsch – Que poderia dizer a uma pergunta tão abrangente? Não sei ao certo. Apenas vislumbro aqui e ali muito respeito pela coragem que o Papa tem demonstrado ao afirmar certos princípios desde o centro mesmo da Igreja romana. O sentido que ele deu ao seu pontificado, “sou bispo de Roma, antes de ser papa”, já conquistou muita aceitação no mundo luterano. Seus gestos em direção ao mundo dos pobres, suas atitudes de compreensão diante do sofrimento humano seja onde estiver ocorrendo, as denúncias que tem feito em relação aos governos e a setores da igreja que comprometem o anúncio do evangelho, sua abertura às igrejas cristãs e mesmo a lideranças de outras religiões, tudo isto o aproxima de nossa concepção de uma igreja diaconal, uma igreja que se coloca, antes de tudo, a serviço do evangelho libertador. Entendo que são sinais alvissareiros, pois poderão nos levar a um maior entendimento futuro entre as igrejas e em relação à missão de Deus (missio Dei) neste mundo. E é isto que interessa, ao final das contas.

 

Por Patrícia Fachin


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Faculdades EST - Prof. Dr. Roberto Zwetsch - Entrevista divulgada no IHU Online, do Instituto Humanitas Unisinos, no dia 21/05/2015, sobre a Igreja e o processo de abertura que nunca acaba.
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