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Prof. Dr. Valério G. Schaper

12/05/2016 - Lançado o livro eletrônico Plantar, comer e rezar, resultado de uma pesquisa sobre a relação da produção de alimentos com o consumo e as prescrições alimentares religiosas, coordenada pelo Prof. Dr. Valério G. Schaper.

A pesquisa contou com a participação do doutorando Willian Kaizer de Oliveira, dos bolsistas de iniciação científica Cláudio Böning e Joel Frederico, e do trabalho voluntário de Jovan Mendvral e Denise Süss, ambos estudantes de Teologia na Faculdades EST.

Confira o bate-papo realizado pelo Instituto Sustentabilidade com o Prof. Valério Schaper e o doutorando Willian Kaizer sobre os resultados da pesquisa.

 

De onde vem o interesse para pesquisar esta relação entre alimentação e a formação dos hábitos alimentares sob influência das religiões e da lógica da produção agrícola?

O estudo a respeito da alimentação tem crescido muito nos últimos anos, especialmente na área da antropologia e da sociologia. Há também um interesse geral pela alimentação que está presente na multiplicação de dietas, na busca do corpo saudável, nos diversos programas de TV sobre culinária, revistas de dietas de emagrecimento, nas inúmeras reportagens sobre o absurdo do desperdício e sobre os impressionantes números da fome no mundo. Em resumo, é possível dizer que a crescente presença da alimentação nos diversos âmbitos da vida e a percepção de que seu sentido transborda o ato biológico a converte em uma porta de entrada para pensar o mundo contemporâneo. Daí nasceu o interesse pelo tema.

 

Considerando a alimentação neste sentido amplo e também profundo, como podemos entender os hábitos alimentares das pessoas?

Os hábitos alimentares são hoje afetados fortemente pelo consumo (pelas compras nos supermercados, comer fora de casa, etc.). A escolha do que se deve comer é, então, influenciada por um conjunto de fatores que extrapolam a ideia da nutrição e mesmo a do que é saudável. As escolhas descuram também os sentidos sociais da alimentação. Presos a novos modos de consumo, os hábitos alimentares vão assumindo sentidos imprevistos. Se o comer e os hábitos relacionados a isto já foram elementos indicadores de identidades mais precisas (geográfica, étnica, etc.), estamos hoje nos perguntando que tipo de identidades este ato e os hábitos relacionados constroem.

 

Como se dá o processo de escolhas alimentares?

Os fatores que determinam escolhas alimentares envolvem aspectos culturais da culinária. A identidade de um grupo é firmada pelos pratos que se come. Por exemplo, brasileiro come arroz com feijão. Entretanto, sabemos que isso é mais complexo. Os gostos, as preferências alimentares, mas também a disponibilidade dos alimentos de acordo com as condições sociais, econômicas e ecológicas do ambiente influem, diretamente, nos processos de escolha. Atualmente a publicidade dos alimentos determina fortemente as tendências alimentares.

 

É disso que trata a pesquisa realizada na EST sobre alimentação?

Sim. Também queríamos, de forma especial, compreender o papel que as religiões desempenharam e desempenham neste complexo conjunto de elementos.

 

O livro que vocês estão disponibilizando é a apresentação da pesquisa. Quando e onde a pesquisa ocorreu?

A pesquisa foi delineada em 2011 e as entrevistas foram realizadas entre 2012 e 2013 e, além de São Leopoldo, houve entrevistas em outras cidades do Rio Grande do Sul e algumas do Espírito Santo. A tabulação dos dados ocorreu em 2014 e o relatório foi elaborado em 2015. A partir desse relatório, a apresentação dos dados, seu cruzamento e sua análise foram transformadas em “ebook” (PLANTAR, COMER E REZAR: A produção da alimentação e a formação de hábitos alimentares – em busca de uma abordagem ético-religiosa) que se encontra agora disponível no site da Faculdades EST.

 

Como a pesquisa foi realizada?

A pesquisa é fruto das reflexões e diálogos que tiveram lugar no Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos da EST (NPDH). Partindo da pergunta básica pelo direito à alimentação e a questão da segurança alimentar, a pesquisa assumiu como foco investigar a relação dos meios de produção de alimentos, o modelo agrícola e agropecuário, os modos de consumo e as prescrições alimentares religiosas. Baseado nisso, foi realizada uma pesquisa com questionário autodeterminado que pretendeu averiguar a frequência do consumo de determinados alimentos, como as pessoas comem, com quem comem e como refletem sobres as práticas e as mudanças na alimentação.

 

Havia, então, claro interesse em estabelecer relação com a religião?

Sim. A ideia era justamente investigar a relação da alimentação com aspectos religiosos, como a ritualidade, crenças, prescrições e interdições (o que não se pode comer e quando se deve, ou não, comer algo). Um dos recursos que a nossa pesquisa possibilitou foi a organização das respostas das pessoas entrevistadas em amostras correspondentes aos grupos religiosos existentes no Brasil como católicos, evangélico-luteranos, pentecostais, religiões afro-brasileiras e religiosidade indígena de maneira ampla. É preciso considerar, contudo, que se trata de uma amostra muito modesta.

 

A que conclusões chegaram?

O principal dado relevante que as entrevistas trouxeram é a permanência da comensalidade como elemento importante para as pessoas, apesar das fortes mudanças de hábitos alimentares em virtude da crescente individualização do ato de comer. Permanece a compreensão e a prática de que comer é um ato comunitário.

 

O que é comensalidade?

Comensalidade é a indicação deste anseio humano de comer junto. Comer sozinho é considerado, com maior ou menor peso, socialmente disfuncional, pois o momento da refeição supõe sociabilidades e convivialidades, especialmente no âmbito familiar ou fraternal. A comensalidade estabelece as relações de reciprocidade. Quando se convida alguém para comer em casa, há um jogo social tácito de que o convite será devolvido. Este aspecto é muito marcante e ainda presente no imaginário e nas práticas alimentares. Este é, certamente, um dos resíduos atávicos da dádiva, de que fala Marcel Mauss. A importância desta atividade e de suas mútuas implicações é hoje visível numa prática que se torna frequente e socialmente relevante: almoço ou jantar de negócios. A intenção deliberada é transferir para a área das duras relações comerciais as mutualidades que a comensalidade pode gerar.

 

Poderiam apontar outras conclusões?

Outro aspecto a destacar é a dificuldade - e certa angústia - que se materializa hoje na hora de escolher os alimentos. Isto está presente na frequência com que as pessoas refletem sobre as suas práticas alimentares e sobre as mudanças de hábitos alimentares provocadas, por exemplo, por indicações de ordem médica (controle do índice de colesterol, etc.). Nas comunidades tradicionais havia regras rígidas que regulavam o que comer e como comer. Isso enfraqueceu muito nas sociedades urbanas. Por exemplo, para a tradição judaica – e algumas tradições cristãs - não é permitido comer carne de porco de acordo com os códigos do livro de Levítico no Antigo Testamento. Fora destes contextos religiosos mais rígidos, pode-se, hoje, comer de tudo sem infringir normas religiosas. Hoje, normas e interditos alimentares são muito mais influenciados pelos nutricionistas, profissionais de beleza, médicos e pelas dietas de emagrecimento. Claro, isso produz um curioso encontro com prescrições religiosas ancestrais, mas não coloca as religiões neste circuito da mesma forma.

 

Para encerrar, poderiam falar ainda rapidamente sobre esta constatação de que escolher a comida hoje gera angústia?

Bom, em parte isto tem a ver com o fato de que as pessoas que vivem nos ambientes urbanos estão alheias ao processo de produção de alimentos. Elas tendem, frequentemente, a desconfiar do que vão ingerir. Há uma preocupação constante, intensificada por advertências da área da saúde ou ecológicas, com a origem e a qualidade dos alimentos. Por outro lado, há pouca ou nenhuma preocupação com o desperdício de alimentos. Este é um sério problema atualmente, já que 40% do que se produz se perde entre a produção, o transporte e o consumo. Esta angústia reintroduz um componente de culpa no ato alimentar, desconectado agora das religiões. O filósofo esloveno Slavoj Zizek refletiu sobre alguns aspectos deste processo. Teologizando sobre o que ele descrevia, podemos dizer que a culpa já vem hoje acompanhada de algum tipo de absolvição: come-se alimento light ou diet, bebe-se cerveja sem álcool, hortaliças orgânicas, café descafeínado. Ao desperdício respondemos com campanhas de arrecadação de alimentos. 


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