Faculdades EST - Profa. Dra. Lia Rejane Mendes Barcellos 

Ambiente EaD

Preencha os campos abaixo para efetuar o login


Dúvidas no acesso?

Verifique abaixo o e-mail de suporte da área desejada e entre em contato:

Portal Educacional: ti@est.edu.br

Webmail: informatica@est.edu.br

Catálogo da Biblioteca: biblioteca@est.edu.br

Ambiente Virtual: ead@est.edu.br





Profa. Dra. Lia Rejane Mendes Barcellos

13/11/2014 - A Prof. Dra. Lia Rejane Mendes Barcellos esteve na Faculdades EST durante o II Simpósio Música e Cidadania, onde falou sobre ‘Metáfora musical em Musicoterapia’, e também participou do VI Fórum de Musicoterapia da AMT-RS 2014.

A Prof. Dra. Lia Rejane Mendes Barcellos esteve na Faculdades EST durante o II Simpósio Música e Cidadania, onde falou sobre ‘Metáfora musical em Musicoterapia’, e no VI Fórum de Musicoterapia da AMT-RS 2014, onde trabalhou sobre o tema ‘A música como linguagem em Musicoterapia’. Lia apresentou os resultados de sua tese de doutorado, defendida em 2009, onde estudou a música desde um olhar mais teórico. “Não só para aplicar na musicoterapia, mas para explicar o que acontece com o paciente, para entender o que acontece com ele”, disse ela. Lia sempre teve uma relação muito forte com a música. Fez piano desde criança, especialização em educação musical, Bacharelado em Musicoterapia fez Mestrado e Doutorado em Música. Confira abaixo a entrevista concedida por Lia Rejane ao final do Fórum de Musicoterapia, que traz, também, um histórico de vida e profissional.

 

1)      Gostaria de um relato da sua experiência com a musicoterapia.

Eu comecei o curso de Musicoterapia em 1972, no primeiro curso de Graduação em Musicoterapia do Brasil, que foi do Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro. Terminei o curso em 1975, mas dois anos antes, no segundo ano de faculdade fui fazer estágio em um grande hospital de reabilitação no Rio de Janeiro, que é a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR) e ali fiquei durante oito anos trabalhando com bebês, crianças, autistas, paralisados cerebrais, deficientes auditivos, deficientes visuais, adultos e idosos com AVC ou AVE, traumatismo crânio-encefálico, pacientes vítimas de tiro, acidente de trânsito. Enfim, uma ampla gama de patologias. Em 1980 saí da ABBR e abri um consultório onde comecei a trabalhar só com crianças. No consultório trabalhei até 2001. Mas nesse mesmo tempo, em 1993, teve a chacina da Candelária. Eu estava em um Congresso na Espanha acompanhando as notícias enquanto arrumava a mala para retornar ao Brasil e ouvi sobre a chacina. No início pensei que era mais uma daquelas notícias para falar mal do Brasil, mas quando cheguei no Rio de Janeiro e me deparei com o que realmente tinha acontecido eu tomei uma decisão: trabalhar com meninos em situação de rua. Então, junto com outra colega musicoterapeuta, Lenita Moraes, trabalhamos em uma ONG no Morro do Pavão/Pavãozinho durante alguns meses. Mas, infelizmente, a casa foi fechada pelos traficantes, que botaram todos morro abaixo, com metralhadoras. O trabalho acabou, mas trouxe desta experiência uma composição de um menino de rua, que eu apresentei aqui no Simpósio, que é inacreditável. Eles só cantavam rap, até que um dia ele chegou dizendo que tinha tido um sonho e eu disse para ele fazer uma música, então, sobre esse sonho. E ele fez uma letra linda, inicialmente num RAP: “Hoje eu tive um sonho/ Um sonho diferente/ Sonhei que todo mundo era gente”. E aí ele canta em ritmo de samba: “Nós somos o sonho/ Sonhei que a violência ia acabar/ Meninos de rua jogados pelo chão, pelo chão/ Como é que esse país vai pra frente então, então/ Alegria, viver/ Viver a alegria/ O Brasil não pode viver sem você”. Ele jamais diria isso verbalmente. Mas ele consegue cantar. Infelizmente, acabamos saindo do morro. Em 2001 encerrei as atividades do consultório e fundei uma clínica social junto ao curso de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música (Centro Universitário) onde dou aulas desde 1975. Quando eu estava no último ano do curso comecei a lecionar para os anos iniciais. Essa clínica ainda existe, embora eu não faça mais parte. Em 2008, fui convidada para trabalhar numa clínica de diálise, com crianças. Trabalhei lá até 2012 e acabei de apresentar em um Congresso Mundial na Áustria um trabalho sobre essa experiência, que tem fatos inimagináveis, como as enfermeiras dançando dentro da sala de diálise. E as crianças compondo, cantando, algo incrível. Então, resumindo, saio da instituição de reabilitação, passo a trabalhar com crianças de todos os tipos, passo pelo trabalho com meninos em situação de risco social (de rua), trabalho na clínica com todo tipo de paciente e paro na diálise.

 

2)      Qual a importância do arquivamento das sessões?

Meu primeiro paciente foi em 1973, eu estava no segundo ano do curso. São 40 anos de trabalho, todo arquivado. Eu tenho tudo escrito. Só não tenho escritas as sessões da diálise porque eu fazia no computador e acabei perdendo tudo, um material incrível. Perdi três anos de trabalho. O restante são pilhas e pilhas de material.

 

3)      A musicoterapia é indicada para algum tratamento em especial?

Na verdade a musicoterapia tem uma ampla aplicação, ou seja, ela é aplicada em muitos campos, ou em muitas áreas. Eu não diria que tem uma área que seja mais indicada. Fala-se muito no autismo, porque o autismo é muito atraente, seja pela dificuldade ou pelo mistério. Sabe-se quem é o autista, mas não sabemos, exatamente, o que é o autismo. Muitos profissionais de musicoterapia querem trabalhar com autistas porque há uma provocação neste trabalho, no sentido de conseguir fazer alguma coisa pelo autista. Mas, cada vez mais, se amplia a utilização da musicoterapia em áreas que no Brasil não temos, por exemplo, no tratamento de refugiados de guerra. Hoje, o Brasil está recebendo os haitianos, por exemplo, só que eles estão em locais nos quais a musicoterapia ainda não é tão conhecida. Há uma ampla gama de tratamentos. Desde antes do nascimento, pois também trabalhamos com grávidas. Até trabalhos paliativos. Ou trabalhos com idosos.

 

4)      Sobre a aplicação da musicoterapia para o tratamento de autismo, como se encaixa a música nesse universo?

A literatura que fala sobre autismo sempre aponta os autistas como pessoas muito musicais, no sentido de que eles podem interagir através de algum aspecto da música ou porque eles gostam muito de música. Toda literatura aponta isso e parte dela fala que a musicoterapia deveria ser umas das primeiras abordagens terapêuticas a ser utilizada com autistas. Outro dia olhei um vídeo de um médico catarinense onde ele disse: “A musicoterapia deve ser a primeira abordagem terapêutica a ser abordada com autistas”. Porque, dependendo do grau do autismo, muitos não falam. Como eles não falam, e a música é não-verbal, a música, talvez, chegue até eles de uma forma mais sutil do que a fala. Eles se abrem mais pra música, porque a música vem de um objeto, e nem sempre de uma pessoa. E o autista, frequentemente, não se relaciona com as pessoas. O instrumento musical atua como um objeto intermediário. Muitas vezes eles se abrem muito mais pra música do que para a fala e, aí, a música terá um alcance muito maior com esses pacientes.

 

5)      Como está a indicação da musicoterapia por parte dos médicos?

Sem dúvida, a pesquisa acadêmica acaba dando maior credibilidade. E alguns lugares são chave para isso, como a Marta Negreiros, na UFRJ, que tem pesquisa com mães de bebês prematuros ou no aleitamento materno; a Cláudia Zanini, na UFGo; a Thelma Alvarez, na UFRJ,. Mas a questão da clínica também é muito importante, nós temos musicoterapeutas dentro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ou seja, temos a especialidade dentro de hospitais de referência. Dez dias atrás eu estava em Bagé, com Ana Maria Delabary, uma ex-aluna da pós-graduação, que foi chamada para implantar a musicoterapia numa unidade do SUS que atende mulheres com câncer de mama em quimioterapia. Então, discutimos essa implantação e vou permanecer como supervisora. Os médicos encaminham com certa facilidade. Alguns Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), no Rio de Janeiro, têm musicoterapeutas como coordenadores. Na Itália, Basaglia abriu as portas dos hospitais psiquiátricos e colocou todos os doentes nas ruas. Isso, de certa forma, estimulou a necessidade de uma reforma psiquiátrica. Preconiza-se que as pessoas não sejam tratadas internadas nos hospitais psiquiátricos. Então, foram abertos Centros de Atenção Psicossocial, tendo também os de Álcool e Drogas, os de Atendimento Infantil, que o paciente vai, passa o dia e volta pra casa. Porque ao ficar confinado ele está fora da sociedade, do ambiente social. Então os CAPS, são esses centros de atendimento onde eles passam o dia, tomam medicação, fazem atividades e voltam para casa, para o convívio com a família. No Rio de Janeiro, temos muitos musicoterapeutas concursados que atendem nestes locais.

 

6)      Pode ser mais complexo tratar um paciente que já teve iniciação musical ou conhecimento musical anterior?

Tudo vai depender do musicoterapeuta. Com certeza, é muito mais difícil trabalhar com quem tem formação musical. Veja a minha trajetória, eu tenho uma formação musical. Primeiro andei pela música, depois fui para a musicoterapia e agora voltei, recentemente, terminei o doutorado, em 2009, em Música. Em geral, quando tinham pacientes com formação musical encaminhavam para mim. Porque a formação musical do musicoterapeuta tem vários níveis também. Por exemplo, um paciente que tem AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou AVE (Acidente Vascular Encefálico), aquela pessoa que não fala, não anda... se você utilizar a música com esse paciente, talvez você consiga uma aproximação maior. Tanto que num caso específico, a fisioterapeuta percebeu que quando ela cantava a paciente tinha uma resposta melhor. Por isso essa paciente foi encaminhada para a musicoterapia, em um centro de reabilitação no Rio de Janeiro. Um musicoterapeuta que não tem uma formação musical média ou uma musicalidade, não vai compreender o que ela fez. Pois ela tocou no piano e começou a tocar Jesus alegria dos homens, de Bach, começando na nota "dó", tirou a mão do piano e colocou novamente a mão, começando a mesma música na nota "fá". E ela conseguiu tocar do mesmo jeito. Era uma pessoa que tinha tido formação musical e, além disso, era extremamente musical. Ou seja, isso é algo que poucos músicos fazem, que é transpor de um tom para outro, falando numa linguagem musical.

 

7)      E o musicoterapeuta precisa reconhecer isso...

Não só reconhecer, mas precisa conseguir fazer. Porque ela tocava a melodia e eu tocava a harmonia, ou o acompanhamento. Se ela muda de lugar eu também tenho que mudar de lugar, eu tenho que saber fazer transposição, eu não posso tocar num tom que não seja o dela. E isso é bastante difícil. Outro paciente tocava violino, viola e clarinete. Smile, (Charlie Chaplin), era a música que ele mais tocava. Ele tocava no violino e em seguida pegava a viola deixando a mesma posição, o que faz uma diferença enorme, porque o violino tem uma afinação diferente da viola. Assim, então ele acaba transpondo, ou mudando de tom. Eu o acompanhava no piano e nesse momento eu também tinha que mudar de tom. O que não é tão simples. Este era um paciente que também tinha grande musicalidade.

 

8)      O que é a transposição musical?

Transposição é passar de um tom pra outro. Se o paciente está tocando Jesus alegria dos homens começando pela nota Sol, por exemplo, (Sol Lá Si Ré Dó Dó Mi Ré Ré...) e tira a mão do piano e volta a tocar, começando no Ré, ele transpôs de Sol maior para Ré maior (Ré Mi Fá # Lá Sol Sol Si Lá Lá). Essa transposição que o paciente faz precisa ser acompanhada por quem está fazendo a harmonia. E é bastante difícil se fazer isso. Então, o musicoterapeuta para trabalhar com um paciente que tenha formação musical tem que ter uma formação musical mais ampla e também uma certa musicalidade para conseguir se movimentar musicalmente, assim como o paciente está se movimentando.

 

9)      Qual o perfil de quem deseja ser musicoterapeuta?

No início do curso, três tipos de pessoas procuravam pela Musicoterapia: quem queria ser musicoterapeuta; quem queria se soltar mais no seu instrumento, portanto, ser um performer melhor; e aqueles que achavam que o curso ia fazer terapia neles próprios. Hoje em dia não é mais assim. A necessidade de se ter habilidade musical (o domínio de um instrumento musical) dificulta muito a entrada dos candidatos nos cursos. Mas, é claro, não basta saber música, é preciso ter um perfil para ser terapeuta. É preciso um perfil humano para lidar com as pessoas, senão a pessoa não será um terapeuta. Então, nesses casos é melhor investir na carreira de músico. É necessário que tenha a música, mas que tenha também um trabalho que prepare essas pessoas para serem musicoterapeutas.

 

10)      Como estão cursos de Musicoterapia?

Ao todo no Brasil temos seis cursos, eu posso falar sobre o curso de Rio de Janeiro. Temos uma psicóloga que trabalha em dinâmica de grupo com os alunos. Não é terapia, mas é muito importante porque esses alunos vão tratar de questões que preparam eles para serem musicoterapeutas e isto é muito importante, sem dúvida.

 

11)   Qual o papel da Faculdades EST nesse contexto, embora seja um curso jovem ainda?

É extremamente importante, porque temos cursos no Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiânia. Para quem está na Região Sul, realmente foi um ganho. O curso atende muito bem esses dois estados, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Eu era avaliadora do MEC quando vim aqui, em 2005. 

 

12)   Qual a importância da sintonia entre os cursos de Música e Musicoterapia?

Na verdade o curso de Musicoterapia tem alguns aspectos em comum, porque o trabalho do musicoterapeuta é com música. Então, algumas disciplinas são até comuns. Os alunos aqui eu sei que têm um núcleo comum e isso é muito bom, porque toda possibilidade que tivermos de desenvolvimento em música é importante para nós, musicoterapeutas, pois é com isso que se trabalha. Algumas pessoas dizem que o centro de tudo é a música. Eu digo que é o paciente. Sem o paciente, não teremos terapia. Sem música não será musicoterapia!!!!


Compartilhe:



Faculdades EST - Profa. Dra. Lia Rejane Mendes Barcellos - A Prof. Dra. Lia Rejane Mendes Barcellos esteve na Faculdades EST durante o II Simpósio Música e Cidadania, onde falou sobre ‘Metáfora musical em Musicoterapia’, e também participou do VI Fórum de Musicoterapia da AMT-RS 2014.
EST nas Redes Sociais
Rua Amadeo Rossi, 467, Morro do Espelho - São Leopoldo-RS - CEP: 93.030-220 - Telefone: (51) 2111-1400 - FAX: (51) 2111-1411 - E-mail: est@est.edu.br