Notícias V Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião encerra com a definição de 42 teses

29/08/2017
V Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião encerra com a definição de 42 teses

V Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião encerra com a definição de 42 teses

Durante quatro dias, de 23 e 26 de agosto, o campus da Faculdades EST foi palco de um evento cheio de cores, cheiros e sabores. Instigados pela textura e o colorido da chita, os e as participantes do V Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião compartilharam experiências e discutiram questões atuais no campo da pesquisa, da atuação política e da vivência comunitária no cruzamento das temáticas de Gênero e Religião. Este ano, o evento organizado pelo Programa de Gênero e Religião (PGR) da instituição teve como eixo temático “Ecologia – Economia – Ecumenismo”.

Durante o Congresso, passaram pela Faculdades EST pesquisadores, pesquisadoras, estudantes, lideranças comunitárias e de movimentos sociais, além de agentes governamentais de diversas partes do mundo.

O resultado do V Congresso foram 42 Teses, chamadas pelo grupo de “Um tecido frágil com cores fortes”. Segue abaixo o documento oficial produzido no evento.

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Nós, vestidas de chita, pano das mulheres e dos homens do povo na festa, na luta e na manifestação de suas crenças, afirmamos coletivamente:

Tese 1

Somos mais de 300 pessoas, vindas de mais de 20 países, de quatro continentes e de todas as regiões do Brasil e nos reunimos para discutir ecologia, economia, ecumenismo.

Tese 2

Nos inserimos nas celebrações e discussões em torno dos 500 anos da Reforma Protestante para apresentar e pensar nossa contribuição feminista para esses debates.

Tese 3

A realidade denunciada em 2015 na Carta Aberta do IV Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião se agravou dramaticamente e de maneira acelerada.

Tese 4

A área de estudos de Gênero e Religião, que se articula em torno da justiça de gênero, vive hoje um intenso processo de ataque articulado por setores conservadores e fundamentalistas do campo político e das igrejas em torno da propaganda sobre a chamada “ideologia de gênero”.

Tese 5

Diante do fenômeno da violência e feminicídio em nível político, religioso e cultural que afeta os corpos, a sexualidade e o meio ambiente é importante desconstruir a trama ideológica que a sustenta desde a luta feminista e os estudos de gênero.

Tese 6

O Brasil vive as consequências do golpe ocorrido em 2016, que culminou no impeachment da presidenta Dilma Roussef.

Tese 7

O golpe é misógino!

Tese 8

As reformas - trabalhista, previdenciária e política – são antipopulares e retiram direitos, especialmente das mulheres e pessoas LGBTIQ, povos e comunidades tradicionais.

Tese 9

A fragilidade da democracia se manifesta na falta de representatividade e mecanismos de participação real na tomada das decisões.

Tese 10

É necessária a retomada do processo democrático e o fortalecimento de uma democracia laica e direta desde já e em 2018.

Tese 11

Mesmo em face de todos os retrocessos, há uma resistência organizada ao capitalismo patriarcal expressa, por exemplo, nas atividades do 8 de Março e na Greve Geral de 28 de abril de 2017 no Brasil.

Tese 12

Libertem Rafael Braga!

Tese 13

O processo vivido no Brasil é uma das expressões do avanço conservador e fundamentalista em toda a América Latina e em diferentes partes do mundo.

Tese 14

Existe um perigoso discurso de ódio, extremista, essencialista e discriminador que compromete o reconhecimento às diferenças em detrimento das liberdades de credo, expressão e existência.

Tese 15

A saída para o momento que vivemos será fruto de organização popular de base.

Tese 16

Faz-se necessário o fortalecimento dos movimentos sociais, coletivos e organizações ecumênicas na luta e defesa dos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais, ambientais e sexuais (DHESCAS).

Tese 17

Faz-se necessário, também, a articulação em redes de apoio que tenham em sua pauta de atuação a superação das violências na perspectiva de uma diaconia transformadora, fundamentada na justiça de gênero.

Tese 18

A perspectiva revolucionária não pode ser perdida do nosso horizonte.

Tese 19

A relação entre academia e movimentos sociais precisa ser fortalecida.

Tese 20

A sororidade e a irmandade partem da consciência dos feminismos, dos feminismos negros e comunitários, que propõem a intersecção entre gênero, classe, raça/etnia e sexualidade, da ideia teórico-prática comum às lutas das mulheres através da compreensão dos sentimentos, dos corpos e das experiências plurais.

Tese 21

É preciso rever os fundamentos das éticas feministas, superando o uso de categorias absolutas e universais.

Tese 22

Desde uma perspectiva indígena questiona-se os conceitos reducionistas de gênero e feminismo.

Tese 23

A teologia feminista é uma experiência visceral: história, corpo, experiências e vivências pessoais e coletivas, inter-relacionado os saberes em suas diversidades.

Tese 24

O acesso à literatura sagrada a partir de uma perspectiva de gênero revela a potência crítica desses textos, com respeito a processos institucionalizantes enrijecedores e fundamentalistas, que inviabilizam a libertação, fazendo-se necessário rever conceitos e práticas de contextos das comunidades atuais, repensando criticamente a interconexão de toda a criação e as relações de poder.

Tese 25

O discurso das igrejas segue sendo patriarcal e lesivo às mulheres e ao meio ambiente. Por isso, necessitamos aprofundar os estudos teológicos em perspectiva de gênero.

Tese 26

Nos incomodamos com as narrativas sobre lugar e não-lugar; o espaço; a LGBTfobia; o colégio; educador; a formação docente; o silenciamento; o controle/poder. Queremos ocupar/disputar lugares; afirmar e atuar no movimento; cuidar; ser novidade; buscar abertura; desconstruir. Posicionar, com mais energia, a curiosidade, a erótica/desejo, a escuta, a “frescura” e o sexo como parte da vida integral.

Tese 27

É necessário trabalhar por uma epistemologia que dialogue com saberes e sabores produzidos com todo nosso corpo e desde os mais diversos lugares dos conhecimentos ecosóficos.

Tese 28

Somos um prato cheio de fome por justiça!

Tese 29

É fundamental o resgate e a publicação de histórias de mulheres de todas as etnias, cada vez mais integradas, sem pré-conceitos que tanto humilham e diminuem todas na sua humanidade.

Tese 30

Buscamos a consolidação de uma sociedade solidária empenhada na promoção e bem-estar de todas as pessoas.

Tese 31

Bem viver é uma cosmopraxis comunitária dos povos indígenas da Abya Yala e não pode somente ser assumida em leis, porque exige uma prática e uma fala coerentes, o que muitas vezes não acontece, como é o caso da construção de uma estada na Bolívia que dividirá ao meio o território indígena Tipnis trazendo prejuízos para diversos povos locais.

Tese 32

Políticas desenvolvimentistas e de exploração gananciosa destroem a sócio-biodiversidade e exploram a sabedoria dos povos indígenas. É preciso reconhecer os saberes indígenas para superar discriminações e racismo. 

Tese 33

Diante do envelhecimento crescente da população mundial, brasileira e das nossas comunidades torna-se importante uma atenção especial aos temas referentes à população idosa.

Tese 34

A vida é um processo dinâmico e envelhecer faz parte desse processo. A transversalidade do tema envelhecimento torna-se importante na medida em que toca questões essenciais da nossa vida e das nossas relações.

Tese 35

A construção e o cuidado para com a casa comum passa pelo respeito à vida e pela valorização da diversidade.

Tese 36

É preciso uma ética global voltada para uma cidadania do bem comum que seja nutrida por contribuições de todas as religiões, no diálogo intercultural e no resgate da ecologia de saberes do bem viver (sumak kawsay).

Tese 37

A ancestralidade que pode referenciar novas possibilidades identitárias se constrói no caminho e na escuta das vozes silenciadas. 

Tese 38

É necessário revisitar a imagem do ser humano e sua relação com o sagrado no seu caráter dinâmico e relacional.

Tese 39

Cuidar da casa comum significa promover a vida digna por meio do combate à pobreza e à intolerância, da valorização da igualdade na diversidade, da luta pela justiça de gênero e do respeito às culturas e religiões.

Tese 40

Apesar da dura situação queremos defender a esperança, queremos seguir lutando com obstinação, conscientes de que outro mundo é possível. Esta luta não é individual, mas um processo coletivo e desde as bases, fortalecidas pela sabedoria divina.

Tese 41

O V Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião foi um encontro de pessoas diversas partilhando suas experiências, seus saberes, suas epistemologias, suas pesquisas e práticas em todos os campos, apresentadas em uma multiplicidade de atividades. Nossas vivências não cabem nessas teses, mas se derramam para dentro do nosso cotidiano e práticas de resistência, luta e produção de conhecimento.

Tese 42

Reunimos aqui, fruto da nossa crítica e criatividade, como no tecido da chita, as cores fortes de nossas pesquisas e práticas num tecido frágil, como uma contribuição para as experiências de fé, de luta e de festa na afirmação da casa comum.

São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil, 26 de Agosto de 2017.

 

 


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