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Entrevistas

Entrevista: Profª. Ms. Márcia Paixão, autora da pesquisa intitulada Mulheres no Ministério Ordenado: História, Experiência, Testemunho.

Autora da pesquisa Mulheres no Ministério Ordenado: História, Experiência, Testemunho, nesta entrevista a professora da Faculdades EST, Ms. Márcia Paixão, enfatiza o crescimento da participação feminina nas instâncias decisórias da Igreja, que ainda apresenta dificuldades de enxergar na mulher uma liderança.

Primeira diácona ordenada pela IECLB, ao longo de sua pesquisa Márcia Paixão realiza uma análise da configuração do espaço religioso, destacando as experiências de vida e a formação das mulheres na constituição de uma Igreja equitativa e “mais colorida”.

Solicitada pela Secretaria de Mulheres da Federação Luterana Mundial (FLM), Mulheres no Ministério Ordenado: História, Experiência, Testemunho foi uma pesquisa desenvolvida entre dezembro de 2008 e maio de 2009. Contou com a participação da bolsista Ligiane Fernandes e com o apoio da Faculdades EST e da IECLB.

 
1 - Ao longo do processo de constituição da IECLB, a ordenação de mulheres passou a ocupar a agenda de debates a partir de qual contexto histórico?

Márcia - É importante lembrarmos que em meados da década de 80 o Brasil vivia o final do período de ditadura militar. Nessa época houve também uma grande expansão do movimento feminista em todo o mundo. Na IECLB, ainda na década de 80, mais precisamente em 1987, tem inicio o movimento chamado de Pró-Teológa, que contava com o envolvimento de estudantes da Escola Superior de Teologia e de mulheres do ministério diaconal, catequético e pastoral. Esse movimento reivindicava a implantação da disciplina de Teologia Feminista no currículo do curso de Teologia. Já em 1988, por sua vez, surgiu o Departamento de Diaconia que, além de outras tarefas, também organizou espaços de reflexão acerca da ordenação para os ministérios diaconal e catequético e a equiparação dos ministérios. De modo geral, esse era o cenário político e social de um período em que a temática sobre a ordenação de mulheres começa a ser debatida na Igreja.    
 

2 - A senhora foi a primeira diácona ordenada pela IECLB, no dia 31 de outubro de 1994. Qual o significa dessa data para o despertar da consciência de gênero na Igreja?

Márcia – A ordenação de mulheres para o ministério pastoral remonta à década de 80. A ordenação para o ministério diaconal foi em meados da década de 90 e, sem dúvida, uma conquista. Dentro dessa conquista veio também a questão do ministério compartilhado, que contribuiu para a consciência de gênero e da diversidade de ministérios, uma vez que mais mulheres estavam ingressando no quadro de obreiras e começavam a trabalhar nas comunidades e instituições da IECLB demonstrando a atuação da mulher a partir de uma outra perspectiva. Esse movimento ofereceu novos contornos às questões de gênero dentro da IECLB. Existem jeitos e modos diferentes de encaminhar e de realizar os trabalhos nas comunidades e instituições. Nesse sentido, essa primeira ordenação possibilitou que essa consciência de gênero se expandisse em toda a Igreja.
 

3 – Atualmente, qual é o número de diáconas ordenadas na IECLB?

Márcia - A IELCB possuiu atualmente 59 diáconas e 29 diaconisas ativas no ministério diaconal.
 

4 - Quais foram as conquistas obtidas pela Cátedra de Teologia Feminista, criada em 1991?

Márcia – A Cátedra de Teologia Feminista representou uma inovação na medida em que foi assumida oficialmente no curso de teologia. Nesse sentido, a Faculdades EST foi pioneira ao incorporar esta disciplina no currículo oficial e isso possibilitou outras reflexões a partir da hermenêutica feminista. O fato de ter uma mulher no quadro docente do curso de Teologia também foi um avanço e uma conquista. A criação do Núcleo de Gênero também iniciou a partir da Cátedra de Teologia Feminista, assim como a formulação de pesquisas em nível de Mestrado e Doutorado com ênfase nas temáticas de gênero. Na década de 90, tivemos um grande número de publicações nesta área por conta de toda a reflexão formulada a partir da cadeira de Teologia Feminista. A articulação com movimentos ecumênicos que organizavam seminários e congressos sobre teologia feminista deu sustentabilidade ao tema, fortaleceu as reflexões e orientou a caminhada interna na própria EST. O fato de estudantes terem a oportunidade de aprender uma hermenêutica que trata gênero como categoria de análise e enfatiza a suspeita e a experiência como aspecto fundamental para a reflexão teológica também foi uma conquista que deve ser ressaltada. 
 

5 - No ano passado, o Bacharelado em Teologia da Faculdades EST formou 10 mulheres e quatro homens. O quê esses números revelam?

Márcia – Esses números revelam que mais mulheres estão buscando formação, não apenas na área da Teologia, mas também nos cursos seculares. Em relação ao curso de Teologia em específico, os números de entrada e de saída não são equivalentes, assim como o ingresso no ministério não é o mesmo. Nós temos um número grande de mulheres que prestam vestibular, ingressam no curso, chegam a concluir a graduação, mas não ingressam no ministério. Ainda falta campo de trabalho e ainda há discriminação contra as mulheres nas paróquias. Além disso, muitas mulheres se casam com pastores e quem assume o envio normalmente é o homem, apesar delas trabalharem junto, mas não serem remuneradas e devidamente reconhecidas. Outras mulheres simplesmente optam por trilhar outros caminhos. Terminam o Bacharelado em Teologia e vão trabalhar em outra área. Eu acredito que deveríamos pensar, em termos institucionais, numa política para os ministérios e também numa política de gênero. Isso contribuiria para a equiparação dos ministérios e para a diversidade das ações nas comunidades.

 
6 – Como as comunidades recebem as mulheres ordenadas nas paróquias?

Márcia – Em geral, as mulheres relataram na pesquisa que são bem aceitas. O problema, contudo, é a comunidade enxergar na mulher uma liderança. Todas as mulheres pastoras que responderam aos questionários aplicados durante a elaboração do estudo, coincidentemente, eram casadas com pastores. Elas relatam que, no momento em que um presbitério precisa tomar alguma decisão, seu olhar recai para a figura do pastor, como se decisões importantes somente os homens podem tomar. Essas são questões sociais que se manifestam inconscientemente nas ações das lideranças das comunidades, e interferem na configuração do espaço religioso e no trabalho desenvolvido pelas obreiras. Acredito que somente com o tempo essas barreiras poderão ser transpostas. Isso significa promover formação e informação para as comunidades acerca das relações de gênero e das formas diferentes de liderar de cada gênero.

7 - A quais conclusões chegamos ao realizar o esforço de sistematizar a interação que se estabelece entre o conteúdo teórico até então formulado sobre ministério ordenado na teologia luterana em comparação com as experiências práticas das mulheres nas comunidades?

Márcia – Em termos de conclusões, pudemos perceber que temáticas relacionadas a poder, articulação e formação são fundamentais, tanto para as mulheres ordenadas quanto para as mulheres leigas das comunidades. As mulheres alegam que não têm representantes no Conselho da Igreja e nos principais espaços de liderança. Mas por que isso ocorre? Algumas delas disseram que as mulheres não querem assumir esse lugar tradicionalmente ocupado por homens. Isso significa dizer que falta consciência política e formação por parte das mulheres. Uma das autoras com os quais trabalhamos no desenvolvimento da pesquisa, Rosemary Ruether, assinala que ministério é serviço e não senhorio. As mulheres precisam se dar conta dessa afirmação e de suas implicações, pois a vocação é um chamado de Deus a todas e todos, mulheres e homens. As pessoas chamadas por Deus, sejam elas homens ou mulheres, devem realizar o serviço com empenho, dedicação e com sustentação teórica. Todas as pessoas vocacionadas podem fazer e exercer serviço. Entender-se neste lugar e contribuir a partir da ótica das mulheres ainda é um caminho a ser percorrido e conquistado. Refletir sobre relações de gênero ainda se faz necessário na IECLB. No dia-a-dia da correria do trabalho é necessário planejar espaços de encontro, de convívio e de reflexão sobre as experiências de trabalho e vida para que, de fato, as mulheres possam assumir lugares de poder dentro de suas comunidades e da Igreja. A pesquisa mostrou que a continuidade pode ser através de espaços de formação para obreiras e mulheres leigas. Nossa intenção é criar parcerias entre EST, Sínodos e Coordenação de Gênero da IECLB para contribuir com a formação continuada. Vamos tentar esta articulação para o próximo ano.
 
Leia o relatório de pesquisa na íntegra em português e inglês .

Entrevistas anteriores:
Prof. Ms. Abraham Colque
Dr. Reiner Anselm
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Prof. Dr. Remí Klein
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Prof. Dr. Nelson Kilpp
 
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